Contando a história do blues

Fundada em 2012 e formada por Maurício Pedote na guitarra, André Pedrão no baixo e Valter Gorgati na bateria, a banda paulista Bluemerangs é daquelas que dá um duplo prazer: o de se ouvir um blues de altíssima qualidade e, ao mesmo tempo, o de conhecer a própria história deste gênero musical que está na origem do rock, do jazz e de tantos outros ritmos.

O Bluemerangs são, por assim dizer, “músicos historiadores”: o seu repertório é montado sempre baseado na história do blues, acompanhando a linha evolutiva que vai de um Robert Johnson até Chuck Berry, Rolling Stones, Eric Clapton e Jimi Hendrix – mas passando por Jimmi Reed e Muddy Waters e pescando coisas até de bandas que só tangenciaram o blues, como o Pink Floyd.

Na entrevista abaixo, o baixista do Bluemerangs, André Pedrão, fala um pouco sobre o trabalho do grupo. Músico autodidata, ele aprendeu a tocar ainda com 16 anos. Passou por várias bandas na juventude até que em 2002 alguns amigos o convidaram para montar uma banda totalmente autoral, a Baba de Cobra, que chegou a lançar um CD no concorrido Centro Cultural São Paulo. Dali em diante ele não parou mais de tocar, sendo há tempos considerado um dos melhores baixistas de blues do Brasil.

Música em Revista – Fale um pouco da história do Bluemerangs. Quando o grupo foi criado, e por que a ideia de ser uma banda de blues? Há no Brasil mercado para sustentar uma banda especializada no gênero?

André Pedrão – A banda foi criada e idealizada por Mauricio Pedote em 2012, com a ideia de contar a história do blues desde o seu nascimento nos campos de algodão do sul dos Estados Unidos, muitas décadas atrás, até os dias atuais. Essa longevidade comprova que o blues nunca morre, ele sempre volta como um bumerangue. Veio inclusive dessa constatação o nome da nossa banda, Bluemerangs.

Há, sim, mercado para o blues no Brasil. E ele é bem grandinho. São dezenas de festivais de blues promovidos no nordeste, centro, sudeste, sul, e são muitas também as casas especializadas em shows e eventos. Na verdade, é um autêntico nicho cultural, com um público fiel e em expansão. Inclusive, os jovens gostam muito, sentem muita curiosidade pelo gênero, certamente por identificarem, no blues, as raízes do rock, do reggae e do pop.

MemR – A formação atual do Bluemerangs é a mesma da fundação? Já gravaram discos?

Pedrão – A nossa formação atual é Maurício Pedote na guitarra e voz, eu, André Pedrão, no baixo e na voz, e Valter Gorgati, o Bimbo, na bateria e na voz. Esta não é a formação original. Começamos com uma segunda guitarra, que era tocada por Eduardo Foo, e tínhamos outro baterista, o Marcelo Adrio.

Gravamos um CD demo, com clássicos do blues, apenas para divulgação do nosso trabalho. Ele não foi comercializado, em função das dificuldades com os direitos autorais. E estamos em fase de produção do nosso novo CD.

MemR – Costumam fazer muitos shows? Quais os circuitos em que estão mais presentes? Já se apresentaram em outros países?

Pedrão – Esse ano as coisas melhoraram, acredito que fruto da nossa perseverança, empenho e também pelo reconhecimento do público, que costuma nos pedir sempre bis. Nós tocamos nos lugares os mais variados.

Nos últimos meses, temos feito apresentações, em São Paulo, no Mississippi Pizza Bar, da Vila Madalena, que é uma casa especializada em blues; no The Blue Pub, da Bela Vista, que é uma excelente casa de shows; além de eventos corporativos, aniversários,  casamentos e até em lugares como o Garrafoteca, uma pequena e agradável adega da Barra Funda. O Maurício Pedote já tocou nos Estados Unidos, principalmente em Nova York, no bar do mestre B. B. King.

MemR – Como o Bluemerangs monta seu repertório? Pelo gosto por determinada música, pelo desafio técnico, para dar coerência ou abrangência histórica e estilística aos discos e shows?

Pedrão – Montamos sempre baseados na história, seguindo a evolução do blues desde Robert Johnson, passando por Jimmi Reed, Muddy Waters e o inicio do rock’n’roll com Chuck Berry, Stones, Clapton, Hendrix e outros. Até Pink Floyd entra.

MemR – Quais os artistas que a banda mais costuma tocar? Quais os preferidos do público?

Pedrão – Tocamos desde Robert Johnson até B. B. King, Stevie Wonder, Stevie Ray Vaughan, Jimi Hendrix, Creedence, Dire Straits, Rolling Stones, Beatles, Wilson Pickett, Muddy Waters, Pink Floyd, entre outros. Mas é claro que os grandes sucessos são as músicas mais conhecidas do público, como Time, Mustang Sally, Hey Joe, The thrill is gone, Honk tonk woman, While my guitar gently weeps. Tocamos também músicas autorias, até por estarmos em fase de produção desse nosso trabalho autoral.

MemR – Pessoalmente, como nasceu essa sua paixão pelo blues? Já tocava baixo, ou guitarra, quando começou a tirar as primeiras músicas? Quais os artistas que mais amava e mais o influenciaram no começo?

Pedrão – Eu sou autodidata, aprendi literalmente sozinho. Mas, se isso para mim é motivo de orgulho, não acho que seja o caminho mais indicado. Pelo contrário, eu aconselho a todos que estão começando a aprender com professores gabaritados.

Eu sempre tive certa facilidade com o som do blues, por me identificar muito com esse tipo de música. Comecei aprendendo com o violão e depois passei para a guitarra. Só aí então apareceu o contrabaixo, que deu vazão à minha também enorme identificação com os sons mais graves. O que foi uma boa para mim também em outro sentido, porque não temos tantos baixistas como guitarristas no mercado…

Na guitarra, Hendrix, Jimmy Page e David Gilmour são, para mim, ícones. No baixo tenho três professores “de ouvido”, John Paul Jones, Jack Bruce e Jaco Pastorius. O Mauricio também é musico intuitivo, mas estudou com mestres como Mozart Melo, Rui Saleme, Silas Fernandes, Chris McCarthy, passou pela Escola Municipal de Música de São Paulo e fez cursos de fusion e blues. O Valter iniciou seu estudo musical de bateria aos 10 anos, no Centro Musical Morumbi, de São Paulo, com Lauro Lellis. Ele trabalha como baterista e professor e suas maiores influências são John Bonham, Steve Gadd e Neil Peart, principalmente.

MemR – Que modelo de baixo você usa? E os outros membros do grupo, quais marcas eles costumam utilizar?

Pedrão – Olha, no baixo, nada é igual ao Jazz Bass, resolve tudo. Eu uso JBs de 4 e de 5 cordas. Tenho um xodó pelo fretless 5 cordas, que dá um ótimo timbre para o blues. O Maurício usa uma Fender Stratocaster japonesa de 1987 – que tem um timbre sensacional -, uma Telecaster e outras. O Valter prefere o som de baterias acústicas, em especial a bateria da Pearl, que o acompanha há muitos anos.

MemR – A um músico  iniciante, o que recomendaria se ele quisesse se enfronhar também no mundo do blues? Primeiro aprender a dominar o instrumento, e depois a partir para o blues? Ou fazer as duas coisas juntas?

Pedrão – Tanto na guitarra quanto no baixo, eu diria que aprender música é o principal. Depois, é desenvolver o improviso, tirar da alma o que sente, sem formular escalas ensaiadas. O blues é você.

MemR – Há bons professores de blues no Brasil?

Pedrão – Há sim, tenho um grande amigo, o Marcos Dupra, que tem um método muito legal de ensino de blues, sem falar do próprio Maurício Pedote, que é professor de guitarra e apaixonado por blues. Marcos Otaviano… Chris Mc Carthy… esses  também são mestres do blues. André Christovam e Nuno MIndelis… olha, tem muita gente boa que ensina

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