Produzido em 2007, “Honeydripper – do blues ao rock”, está longe de ser um grande filme, por causa do enredo capenga, das personagens um tanto estereotipadas e do seu tom, que oscila entre o meloso e o edificante. Mesmo assim, é um filme encantador, digno de ser visto e principalmente ouvido – a trilha sonora é ótima.

Escrito e dirigido por John Sayles, esse drama musical evoca (mais do que reproduz) o ambiente no qual vicejava a música negra no começo da década de 1950, que em uma de suas ramificações teria dado origem ao rock.

A história é apenas funcional. Tyrone (vivido com convincente intensidade por Danny Glover) é o dono de um bar em uma cidadezinha do Alabama, o Honneydripper – “Pingo de Mel”, numa tradução aproximada -, que está em vias de fechar por causa da moda dos jukeboxes. Tyrone só admitia música ao vivo em seu estabelecimento.

Desesperado para trazer os clientes de volta, ele decide contratar um famoso guitarrista de blues de Nova Orleans, de quem as pessoas conhecem apenas a voz, pelo rádio. O guitarrista dá o cano e Tyrone é obrigado a contratar, muito contra a vontade, um misto de jovem andarilho e músico chamado Sonny (Gary Clark Jr.), que carrega para todo canto um estranho instrumento musical: a guitarra elétrica.

O filme dá a entender que a partir deste show no Honneydripper o rock começaria a nascer – uma liberdade de interpretação da história algo descabida, para dizer o mínimo. O processo, é claro, foi muito mais complexo.

Mas, na verdade, o enredo, assim como as próprias personagens, não tem tanta importância assim. Ambos acabam diluídos no bonito e melancólico painel da sociedade agrícola do sul dos EUA construído por Sayles.

É um sul belissimamente fotografado e encenado, com suas plantações de algodão e suas estradas a perder de vista, seus aristocratas entediados e amargos, mas zelosos de sua vasta criadagem, seus policiais corruptos, seus negros (ainda) absurdamente explorados, seus guitarristas cegos e meio videntes.

Tudo isso tendo, como fundo, gravações do mais puro blues e um pouco de gospel – que sozinhos já fazem o filme valer com sobras as duas horas de duração.

“Honneydripper” ainda passa de vez em quando na NET. Pena, neste caso, que a dublagem mate o delicioso falar dos negros do sul, bastante caracterizado no filme. É muita falta de noção dublar filmes como este.